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Uma noite para a história

Uma noite para a história

 

Letras cursivas douradas sobre um cartão em papel pólen 250g guardado em envelope sofisticado e lacrado com a marca do tribunal. Teria sido assim em 2002, por exemplo. Passadas duas décadas deste século XXI os convites ganharam outras formas e outros meios, embora as causas…

Agora, está na tela, é virtual. O remetente não mudou, mas o meio é um código com @. A mensagem convida para uma solenidade. Não será uma festa, mas contém o desejo de ser uma celebração. É um convite que não se esgota na presença do convidado (a), mas no esforço de engajamento dele(a) na defesa permanente do objeto a ser celebrado.

O ingresso é um código que dispensa celulose, vai na tela. O nome para o qual ele abre portas não está no grupo dos ocupantes do Chevrolet Virtus que se desloca da sede da entidade convidada para o local da celebração do motivo do convite.

O horário sugerido pela organização do evento para a chegada ao local, sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é 18h00. Percorremos as linhas de Lúcio Costa antes do previsto. Quem anda com Eduardo Rolim não atrasa.

Em não mais do que 10 minutos, o espaço entre o Setor Comercial Sul e o Setor de Administração Federal foi percorrido e, sob a luz do sol poente, o amarelo dos ipês do cerrado estampa os vidros dos prédios icônicos do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Superior do Trabalho.

O cinza da arquitetura em concreto aparente é o mesmo do automóvel que avança pelas barreiras de segurança que circundam o local do evento. A imensidão do azul celeste, pontuado por nuvens que insistem em ganhar formas, se abriga simbolicamente na esfera da bandeira nacional que tremula sob o vento do final da tarde.

A senha para passar pelas três barreiras colocadas antes do portão de acesso ao prédio principal do TSE foi apenas a imagem do QRCode que chegou por e-mail. Sem perguntas, sem respostas, sem revistas, sem segurança? Difícil responder. Muitos seguranças. Na entrada principal, raio-x, scanner, apito. Segurança. Tudo rápido. Muito rápido. Sem tumulto, sem atropelo. Tranquilo.

Dois lances de escada e o subsolo se revela em duas áreas distintas, estacionamento e auditórios. No estacionamento, filas se formam para a leitura de QRCode e liberação de senha de acesso aos auditórios. Aqui, sim, papel impresso. Mais detector de metais, mais raio-x, mais segurança.

O chão mudou de cor. O cimento queimado do estacionamento morre indiscretamente sob o carpete vermelho que predomina em todo o espaço dali em diante. O branco e vermelho dos uniformes do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, oficialmente denominado como Dragões da Independência, não destoa das cores do ambiente. O mesmo não se pode dizer das lanças douradas que conferem ainda mais suntuosidade ao espaço. Lanças que permaneceram imóveis até que apontasse no início do corredor, de aproximadamente 20 metros, os primeiros convidados ilustres. Para esses, era formado um “túnel”, pelo qual desfilavam, cada um com suas alegrias, dores, frustrações, mágoas, invejas, botox, perucas, Armani, Louboutin, Gucci, Louis Vuitton… quase nenhuma máscara.
Passamos entre elas, mas ainda não foi desta vez que os Dragões fizeram qualquer esforço, além de respirar.

Ao final do corredor, de um representante da superpopulação de seguranças que transbordava no local veio a informação necessária: Setor Cinza. Mais alguns passos, e o que nos foi indicado como Setor Cinza se revela um auditório com capacidade para uns 400 lugares e que foi destinado a convidados dos Tribunais Regionais Eleitorais e representantes da sociedade civil. Ali, por meio de um dos tantos telões disponibilizados em diferentes áreas do Tribunal pudemos assistir ao momento histórico.

Em silêncio reverente o público foi tomando assento. A média de idade não era inferior a quarenta e cinco anos. Mais alguns minutos e as primeiras imagens começam a ser projetadas no telão. Ministros e ex-ministros do STF, governadores de estado, presidente da República. O público acompanhou tudo em silêncio. As imagens dos ex-presidentes Lula e Dilma provocaram discreta reação na plateia, mas nada além de discreta, ainda que positiva.

O rito de posse não trouxe nada de novo, a não ser a circunstância. Tantas e tão importantes autoridades da República reunidas para um ato que jamais atraiu público expressivo na história, eis a novidade. Os discursos continham os elogios que se espera para momentos como aqueles, mas as circunstâncias do momento político pediam mais. E veio.

A defesa da democracia, do estado democrático de direito e do respeito ao processo eleitoral e às urnas eletrônicas ganharam diferentes nuances, mas serviram de linha comum a tecer a manta de proteção da legalidade em que se transformaram as falas. Coube ao presidente empossado do TSE a exposição do conteúdo mais contundente em defesa da democracia e do sistema eleitoral brasileiro.

Sem citar o presidente da República, Alexandre de Moraes combateu todos os pontos da construção narrativa adotada por Bolsonaro e sobejamente usada pelo bolsonarismo contra o estado democrático de direito no Brasil. O discurso cortado por aplausos efusivos só não foi mais festejado pelo público presente do que odiado pelo ex-capitão e pelos que ainda o seguem.

As últimas palavras de Moraes soaram como uma súplica a Deus pela defesa do país mais cristão do mundo. Não se ouviu um “amém” de Michele Bolsonaro, enquanto os três auditórios lotados explodiam em aplausos que contrastavam com o silêncio amargo de Bolsonaro.

O convite virtual abriu portas para um encontro emocionante em defesa da democracia, assim como o voto eletrônico abrirá portas para o reencontro do Brasil consigo mesmo.

Francisco Domingos

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