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Seminário Internacional: para enfrentar a privatização é preciso conhecer, ocupar e resistir

É preciso conhecer as plataformas onde se dão as negociações em torno da educação, bem como as ferramentas tecnológicas utilizadas para classificar, avaliar e padronizar o ensino. E, mais do que tudo, é fundamental ocupar todo e qualquer espaço para interferir nos processos com um olhar mais humano. Esse é um resumo sobre o debate que foi travado na manhã de quarta-feira (23/9), do seminário internacional “Os diferentes modos de privatização da educação no mundo e as estratégias globais e locais de enfrentamento”, que ocorre desde a segunda-feira (21/9), no Hotel Braston, em São Paulo (SP), e vai até quinta (24).

O primeiro a falar foi Lucas da Silva Tasquetto, pesquisador de pós-doutorado pela UFRGS e professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que abordou o desenvolvimento da regulação internacional sobre o comércio de serviços educacionais, em especial nos acordos de livre comércio da Austrália, Chile, China, Cingapura, Estados Unidos, Índia e União Europeia – Confira a Apresentação Lucas Tasquetto.

Ele lembrou que, mesmo o Brasil não sendo signatário desses acordos, não coloca qualquer limite à entrada do capital estrangeiro, tanto na aquisição de empresas tanto na negociação da bolsa de valores. Apesar de demonstrar uma influência maior do Ministério da Educação (MEC), em relação ao Ministério das Relações Exteriores, existe um forte comércio doméstico (interno). Uma das constatações de seu estudo é que, no setor privado lucrativo brasileiro, os grupos educacionais estrangeiros têm apresentado melhores resultados do que os grupos domésticos de capital aberto (brasileiros), com maior liberdade na atuação dos professores, com menos padronizações. No entanto, apesar disso, ele é categórico em afirmar que é contra a adesão do Brasil nos acordos de livre comércio.

“Temos um sistema lucrativo privado de massa tão perverso, que esses grupos estrangeiros conseguem ser melhores. Mas não indico que o Brasil seja signatário dos acordos de comércio. A quem interessaria isso e quem ditaria os termos das negociações?”, indagou Tasquetto.

Quem também apontou a perversidade da lógica do privado foi Lalo Watanabe Minto, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp). Ele iniciou sua explanação pontuando que privatização da educação é o “deslocamento das fronteiras entre ensino público e ensino privado” e que para isso “o capital se apropria de todas as maneiras possíveis desse setor, legais e ilegais, éticas e não éticas”.

Watanabe frisou que a educação tem sido apropriada pelos interesses políticos, econômicos e ideológicos de grupos que tornam o ensino um modelo de negócio rentável.

“Temos que retomar as lutas em defesa da educação pública como único modo de resistir e contrapor-se a essas forças, que são muito poderosas”, disse, citando a influência política e econômica do meio privado sobre as instâncias de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário). Como exemplo, citou os 10% do PIB para a Educação que deverão ser alvo de disputa entre o público e o privado.

Padronização
A apresentação do pesquisador de pós-doutorado Sam Sellar (veja Apresentacão San Sellar), da universidade de Queensland, na Austrália, falou da padronização que ocorre nas provas Pisa (sigla em inglês para Programme for International Student Assessment – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), na multinacional Pearson e na educação baseada em processamento de dados. Trata-se de analisar como novos atores provados influenciam em políticas públicas educativas em nível global.

Ao invés de simplesmente condenar essas práticas, o pesquisador sugeriu que é importante entender como funcionam essas avaliações e padronizações. “A mensagem que quero deixar aqui é que, se quisermos entender melhor, precisamos nos engajar para encontrar novas formas de mapear e trazer para nosso campo o poder logístico dessas ferramentas, que estão fazendo muitas mudanças importantes para longe das instâncias democráticas”, afirmou Sellar, referindo-se à manipulação dos dados, à infraestrutura e ao ensino a distancia.

Para ele, é preciso compreender a tecnologia e como funcionam essas avaliações, “para entender as fontes de trabalho e o que elas (empresas) fazem com isso”. “Fica essa provocação de como os sindicatos de professores podem levar o debate sobre essas avaliações. Como projetar um sistema baseado no conhecimento (dos trabalhadores) ao invés de usar com a expertise das corporações”, completou Seller.

Texto: Deborah Moreira/ Imprensa Contee

Foto: Jordana Mercado/Imprensa CNTE

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