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Questões epidemiológicas e pedagógicas são desafios para retorno ao ensino presencial, dizem professores em live promovida pela ADUFRGS

A ADUFRGS-Sindical promoveu nesta terça-feira, 18, a Live “Desafios para o retorno ao ensino presencial nas IFES” com transmissão ao vivo pelo Youtube e Facebook. Entre as principais dificuldades, foram elencados o cenário epidemiológico, as adaptações e cuidados sanitários necessários para cada local, considerando as especificidades dos cursos, disciplinas e espaços físicos, e ainda as questões pedagógicas, que devem levar em consideração as diferentes realidades dos estudantes e das comunidades das IFEs. O corte no orçamento das instituições também foi tema de preocupação entre os docentes.

O evento teve como palestrantes a epidemiologista e reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Lucia Pellanda, a professora do Departamento de Estatística da UFRGS, Suzi Alves Camey, e a professora do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Liliane Madruga Prestes, representando o GT Educação da ADUFRGS. A mediação do debate ficou a cargo da professora Eglê Kohlrausch, da Escola de Enfermagem da UFRGS.

O painel contou ainda com a participação do presidente da Comissão de Saúde e Ambiente de Trabalho (COSAT) da FAGRO e representante do Comitê COVID-UFRGS, Rui Muniz, da professora do Departamento de Saúde Coletiva e membro do Comitê Técnico (COE-UFCSPA), Maria Eugênia Bresolin Pinto, da professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul) do Campus Sapucaia do Sul, Raquel Caetano, e do professor do Instituto Federal do RS (IFRS), Alexandre Vidor.

O evento foi aberto pelo presidente da ADUFRGS-Sindical, Lúcio Vieira, que lembrou que há pressão por parte de setores da sociedade para este retorno, com escolas voltando. “Na rede federal também temos esse debate e preocupação com o atendimento ao nosso público, nossos alunos e sociedade como um todo”, explicou.

A professora Eglê Kohlrausch, mediadora do evento, ressaltou a relevância de tratar do tema dentro do âmbito das instituições de ensino federal para pensar no retorno às aulas presenciais de uma forma segura. “As ações têm que ser coletivas, não adianta ser individual ou de uma instituição para ter medidas e práticas tranquilas”, disse a professora.

Cenário epidemiológico 

A situação epidemiológica no país, e em especial no Rio Grande do Sul, que recentemente ganhou um novo modelo de monitoramento da pandemia, foi abordado pela professora Suzi Camey, professora do Departamento de Estatística da UFRGS. “É um avanço na forma de controle”, considerou, ressalvando que ainda é difícil ter tranquilidade para falar em retorno às aulas “quando o governo federal nega a pandemia desde o início, há cortes de verbas para universidades e as projeções falam em 600 mil óbitos”. A professora também falou sobre a necessidade de pensar sobre o quanto o ensino remoto pode trazer prejuízos aos nossos estudantes. “Temos que pensar no que é possível dentro desse cenário em que nem todos podem retornar de forma permanente”, completou.

As diferentes características das universidades e a mobilidade que elas envolvem também foi indicada como fator de risco pela epidemiologista e reitora da UFCSPA, Lucia Pellanda. “Temos estudantes de muitas cidades e estados diferentes e até de outros países”, exemplificou. A reitora lembrou que há o risco individual e o risco coletivo, e que “não há resposta pronta” para o que envolve a pandemia.

Do ponto de vista epidemiológico, a professora Lucia Pellanda também chamou a atenção para o cenário atual, que apresentava de uma queda na curva, mas agora aponta para uma reversão dessa tendência. “São indicadores precoces de aumento, o que é preocupante”, alertou. Ela recordou que o conhecimento sobre a transmissão mudou bastante. “Hoje sabemos que a principal via é a respiratória, o foco não é mais a limpeza de superfícies, importa mais o uso correto da máscara, o distanciamento e a ventilação, o que implica evitar aglomerações em espaços físicos, como bibliotecas”, exemplificou.

A necessidade de adaptação à nova realidade nas universidades, considerando o seu contexto, tamanho e mudanças em relação ao cenário sanitário foi abordada pelo representante do Comitê COVID-UFRGS, Rui Muniz. “Estamos revisando na UFRGS essas diretrizes junto com as comunidades”, relatou, acrescentando que a universidade é maior que 450 municípios dos 497 existentes no RS. “É preciso considerar as diferentes situações e ter uma regra geral, priorizando o ensino remoto, tratando projetos de pesquisa de forma excepcional e apontando para a imunização de quem vai trabalhar, terceirizados, servidores, estudantes, bolsistas, professores”, finalizou.

Questões pedagógicas

Os aspectos pedagógicos do ensino e o acolhimento dos estudantes, dentro de um cenário muitas vezes de luto e sofrimento, foram abordados pela professora Liliane Madruga Prestes. “Temos que pensar como fazer uma busca ativa desses estudantes, nos que evadiram, pensar em acessibilidade, inclusão e políticas de assistência estudantil”, ponderou Liliane. A representante do GT Educação da ADUFRGS-Sindical falou ainda sobre a necessidade de resistir, a exemplo de Paulo Freire, neste ano em que se comemora seu centenário. “Nesse contexto de pandemia, pensar a educação também como um ato de resistência, um ato de luta, nesse oceano de tantas fake news, discurso de ódio e negacionismo”, disse Liliane. “Trago o conceito do professor emérito da UFRGS, Balduíno Andreola, que usa um conceito de uma engenharia epistemológico-pedagógica de pontes. Então, nesse contexto de pandemia, mais do que nunca precisamos construir essas pontes entre as diferentes áreas do conhecimento”, concluiu.

As necessidades dos alunos também foram abordadas pela professora Maria Eugênia Bresolin Pinto. “A questão de como introduzir esses alunos, auxiliar e ensinar os profissionais a serem vetores de conhecimento, vozes capazes de enfrentar o negacionismo”, disse a professora, que falou ainda sobre como identificar as competências que podem ser desenvolvidas de forma prática e as que podem ser por ensino remoto nessa nova realidade. “Nunca mais vai ser como antes, mesmo que voltemos a condições ótimas”, refletiu.

No caso do IFSUL, relatou a professora Raquel Caetano, foi adotado um modelo de APNPs – atividades pedagógicas não presenciais, que segundo ela vem funcionando. “Agora é preciso definir como retornar, considerando a questão sanitária, as despesas”, disse a professora, que também falou sobre a necessidade de vacinação de todos os envolvidos. “Vacinação em massa, servidores, não adianta só professores”, afirmou. “Todos queremos voltar, abraçar colegas, mas nas condições adequadas”, concluiu.

Orçamento

Os cortes orçamentários nas universidades também foram abordados pelo professor Alexandre Vidor. “Temos um problema orçamentário que é fato. Em todas as unidades de ensino tivemos um corte aproximado de 21,73%, só neste ano. Estamos lutando contra todo esse corte talvez no pior momento das nossas gerações, das nossas vidas, que é essa pandemia”, relatou.

Participação da audiência 

A audiência no YouTube também se manifestou formulando perguntas aos participantes da live. Respondendo a uma questão sobre os riscos envolvidos na retomada do ensino presencial, a professora Suzi Camey lembrou que “risco sempre existe” e que a própria vacinação não resolve tudo, dependendo do quanto abrangerá a população. “Tem que ter consciência de que [o retorno] é algo intermitente, pode ter que parar novamente, tem que ter ventilação e monitoramento”, acrescentou.

Sobre o tema vacinação para professores, a professora Lucia Pellanda lembrou que a grande questão é a “escassez”. “A escassez de vacinas é que traz essa discussão. O ideal é que fosse para todos, mas temos que seguir o Plano Nacional de Imunização”, resumiu.

Questionada sobre os efeitos do ensino remoto quanto à democratização do ensino, inclusão digital e evasão e qualidade desse ensino, a professora Liliane Madruga afirmou que a pandemia é que impôs esse sistema, e que não houve tempo sequer para organizar. “Há uma diferença entre ensino remoto e ensino híbrido, é preciso repensar currículo, avaliação. Considerar a educação como algo relacional e as desigualdades sociais e econômicas envolvidas”, exemplificou. Conforme a professora, é preciso ainda “respeitar a autonomia institucional”, pois cada curso está envolvido em um universo distinto e têm uma configuração distinta.
A live está disponível para ser assistida de forma completa aqui.

Veja alguns comentários

“Boa noite, ótimo e importante tema para o momento”

Darci Campani

“Parabéns pela abordagem sensível do ponto de vista pedagógico!”

Sônia Mara Moreira Ogiba

“Temos que pensar muitas coisas. Mas já se passou mais de um ano. temos também que avaliar as consequências e resolvê-las, urgentemente.”

Demetrio Luis Guadagnin

“Parabéns e obrigado a todos por suas contribuições ao debate. Todas muito lúcidas e comprometidas com a vida e com a educação como um direito social.”

Lúcio Olímpio de Carvalho Vieira

“Perfeito, Alexandre!!! Sem recursos financeiros não tem como viabilizar o retorno presencial das aulas, simples assim.”

Jairo Bolter

“Vão aprovar uma lei tornando a educação essencial para voltarmos todos ao presencial, em meio à pandemia, mas nunca foi essencial para o financiamento público e para a remuneração dos servidores.”

Roger Elias

“Uma saudação da UNE a esse importante debate! Precisamos discutir sobre o retorno seguro, e antes de tudo a sobrevivência e condições de nossas escolas e Universidades!”

Gabriela Silveira

Fonte: Ascom ADUFRGS-Sindical

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Agência Proifes

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