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Precisamos falar sobre os impactos do ódio contra os professores universitários

Não faz muito tempo, o Brasil tinha um ministro da Educação que, embora desconhecesse regras básicas da língua portuguesa, gastava a parte considerável de seu expediente para espalhar mentiras. Ele dizia, por exemplo, que as universidades federais possuíam “plantações extensivas de maconha” e “laboratórios de droga sintética e metanfetamina”.

Esse mesmo ministro cortou verbas deliberadamente de universidades, afirmando que elas promoviam “balbúrdia” (citou inclusive a nossa UFBA) e disse que professores universitários eram “zebras gordas” que ganhavam “salário de mais de R$ 20 mil trabalhando oito horas por semana” (porque ele não contava que apenas uma parcela muito pequena está neste patamar, que é o topo da carreira, e que o tempo em sala de aula é apenas uma parte das inúmeras atividades acadêmicas desempenhadas por docentes).

Seu nome era Abraham Weintraub. Ele foi considerado o pior ministro da Educação de todos os tempos e fugiu do Brasil com medo de ser preso por incentivar atos contra a democracia e contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Por causa dessas mentiras, tanto a União como o próprio ex-ministro já foram condenados (em processos diferentes) a pagar, respectivamente, R$ 50 mil e R$ 40 mil. Weintraub agora está sendo processado pelo Ministério Público Federal, que pede a cassação de seus direitos políticos por improbidade administrativa.

Embora não conseguisse comprovar as acusações (prova disso é que ele já foi condenado na Justiça por conta de uma dessas falas), comentários do tipo, com o único intuito de depreciar as universidades públicas, se tornaram cada vez mais comuns no Brasil. Mas as mentiras não começaram junto com o atual governo. Tiveram muita força a partir da campanha eleitoral de 2018.

A perseguição às universidades sempre fez – e ainda faz – parte da agenda política do presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados.

Impulsionado por uma rede de fake-news que inclui centenas de milhares de perfis falsos em redes sociais, esse verdadeiro rolo compressor de ódio às universidades enganou uma parcela da população que, na falta de conhecimento, comprou esse discurso, baseado em “memes”, montagens e distorções.

Impacto real

Como os conteúdos mentirosos foram disparados por essa máquina de ódio, se espalharam em grande velocidade também por aplicativos de mensagens. Em pouco tempo, distorceram a compreensão de muitas pessoas sobre a realidade.

Colocaram em prática aquela máxima nazista de que uma mentira repetida inúmeras vezes se torna verdade (ao menos para uma parcela da população).

Essa intensa campanha de difamação tinha como um de seus objetivos acuar e amedrontar a comunidade acadêmica, para que docentes, estudantes e servidores deixassem de enfrentar o discurso violento direcionado às universidades públicas.

Diante das ameaças, retaliações e ofensas (inclusive de amigos, parentes e colegas) muitas pessoas deixaram de se pronunciar nas redes sociais. Essa, inclusive, é uma das estratégias utilizadas por grupos extremistas para calar a voz de quem não se alinha a eles.

A onda de mentiras e ódios também foi gerada para criar um clima de instabilidade nas salas de aula, estimulando perseguições e ataques por parte de estudantes, que foram até incentivados a filmar seus professores para depois “denunciá-los” nas redes sociais.

Esse era o segundo passo: desvalorizar a carreira docente, prejudicando a relação entre professores e alunos. A falta de confiança na relação ensino-aprendizagem reduz a qualidade da educação e fecha os canais de diálogo que são fundamentais para que o pensamento crítico possa ser estimulado dentro do espaço acadêmico.

Quais as motivações para isso?

Uma questão chave é: a quem interessa difamar as universidades públicas?

A explicação é relativamente simples. A destruição dessas instituições faz  parte do projeto político do atual presidente porque ataca espaços de formulação crítica da sociedade, de liberdade de pensamento e de questionamentos, e cuja atuação é voltada para o bem-estar social, e não para interesses particulares. Tudo que o presidente e seus aliados têm medo, e por dois motivos:

1) Para elites dominantes e mesquinhas como as do Brasil, é importante que tudo sempre continue favorável exclusivamente a elas. Portanto, pessoas com pensamento crítico irão questionar a realidade e tendem a buscar mudanças sociais (esse é o mesmo princípio de projetos como o Escola Sem Partido).

2) Organizações extremistas, como as que sustentam o presidente e seu governo, têm dificuldade em criar em espaços onde o pensamento livre e crítico é estimulado, como nas universidades públicas.

Precarizar e difamar é a melhor saída para quem teme uma sociedade com capacidade crítica e analítica. Diferentemente do que ocorre na iniciativa privada, professores de universidades públicas possuem liberdade de cátedra (isso inclui expressão, definição de conteúdos curriculares, linhas pedagógicas e práticas didáticas).

Não à toa, há ataques direcionados com mais violência aos cursos da área de Ciências Humanas, mais ligados à análise da realidade e da sociedade, e dos relacionamentos entre as pessoas. É isso que incomoda aos setores que desejam criar uma sociedade sempre no controle.

Ao chamar estudantes que se manifestam de idiotas ou dizer que o diploma não passa de “uma figura decorativa” – Bolsonaro estimula sua militância extremista para que reprimam também os alunos.

Esses são alguns dos elementos que ajudam a compreender por que as elites brasileiras ainda continuam dando aval às atrocidades do governo. Para elas, não importa que Bolsonaro implemente a barbárie e tome decisões que causem a morte de centenas de milhares de brasileiros, contanto que ele mantenha seu compromisso de beneficiá-las.

Sabotador da ciência

Por que o governo vem, desde antes da pandemia, empregando esforços imensos para deslegitimar o conhecimento científico?

Um dos motivos é seu desejo de se manter no poder. Como o governo não tem um projeto político e nem capacidade para conduzir o país de forma eficiente, a ponto de conquistar apoio popular para se garantir com tranquilidade em uma nova eleição (algo comprovado pelas primeiras pesquisas, que apontavam Bolsonaro como o presidente com a mais baixa aprovação em começo de mandato depois da redemocratização), a opção tem sido atuar no limite do absurdo.

Só que essa tática não se sustenta na realidade com facilidade. E a ciência incomoda porque derruba todas as argumentações do governo e de seus apoiadores.

Para manter o suporte dos setores radicais, o governo precisa manter um ciclo perpétuo de mentiras, distorções, inverdades, exageros, exacerbações e, principalmente, paranoias. Por isso, criou o chamado “gabinete do ódio” que opera dentro da estrutura governamental para espalhar mentiras e atacar adversários nas redes sociais (isso inclui todos que discordam dele, como professores, cientistas, pesquisadores, as ONGs, a velha mídia – que atua no limite de seus interesses econômicos – e diversos outros setores).

Isso explica (ao menos em partes) porque Bolsonaro, os membros de seu governo e seus apoiadores nunca exaltaram o papel da ciência durante a pandemia e nem defenderam as recomendações formuladas com bases científicas.

Estão atuando apenas de olho no futuro político, mesmo que usem a vida de milhões de brasileiros como moeda nessa aposta.

Fonte: Ascom APUB-Sindicato

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