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“Por que a calçada é mais atraente para a travesti do que a sala de aula?”, questiona professora no FSM 2018

Travesti preta do gênero feminino, heterossexual. É assim que Megg Rayara de Oliveira Gomes se apresenta. A professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) é a primeira travesti preta a defender uma tese de doutorado no país. Ela recebeu o título de doutora em Educação em 2017.

“Quando eu digo que eu sou a primeira travesti preta a defender uma tese de doutorado no Brasil em 2017 não é para comemorar, é para denunciar a opressão da universidade, do sistema de educação do Brasil”, afirma Megg.

O alerta foi feito na mesa A inclusão das populações negras e LGBTTQ nas Universidades e Institutos federais: um desafio docente, organizada pelo PROIFES-Federação como parte da programação oficial do Fórum Social Mundial 2018, em Salvador, nesta quarta-feira, (14).

“Sou professora de didática na UFPR, mas a minha presença naquele espaço não é pacífica, é sempre conflituosa porque têm professoras que nem me cumprimentam”, relata Megg.

Ela dividiu a mesa com a primeira professora trans em uma universidade pública brasileira, a doutora em Ciências Sociais, Leilane Assunção, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

As universidades federais do Paraná, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul saíram na frente do debate, mas hoje, existem apenas cerca de dez transexuais com doutorado no país, estima Leilane. “Leilane e eu somos sobreviventes”, protestou Megg.

O debate também teve a intervenção da professora de Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Joseli Maria Silva, que pesquisa sobre a morte de mulheres trans e travestis no Paraná. O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. “Sou uma mulher heterossexual, branca e cis (que se identifica com o sexo de nascença). Eu sei que o meu corpo me traz determinadas vantagens que dão a outros sujeitos de corpos diferentes desvantagens. Como construir espaços para determinados grupos e sujeitos a partir da universidade?”, questiona Joseli.

Caminhos para os transexuais

Leilane relatou casos de transfobia que viveu em 18 anos de universidade, e deixou no ar uma reflexão profunda sobre as portas que se abrem para a população trans. “Talvez, se eu tivesse seguido o caminho da prostituição, eu estaria melhor. Porque hoje, minhas amigas que foram para Europa, estão melhores do que eu, que estou desempregada com pós doutorado”.

 

A mesa foi mediada pelo professor do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Nildo Ribeiro, da Apub-Sindicato. Para Nildo, que representou o GT de Direitos Humanos do PROIFES-Federação, o tema da mesa “nos faz pensar nas lutas concretas que têm repercutido além dos muros acadêmicos. Existe a necessidade de criticar para construir uma sociedade mais justa e igualitária contra todas as formas de dominação e violência”.

Os relatos emocionados de todos os participantes da mesa ecoaram na plateia de mais de 120 pessoas que lotou, durante mais de duas horas, o espaço Chico Mendes, na tenda da CUT. Ovacionada em seu depoimento final, Megg encerrou a atividade com uma reflexão: “Por que a calçada é mais atraente para a travesti do que a sala de aula?”

A fala completa de Megg foi transmitida no Facebook do PROIFES.

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Agência Proifes

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