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“O desafio do momento é enfrentar essa barbárie e o obscurantismo com nossas armas do conhecimento”, diz Willington Germano em debate

No penúltimo debate do 1º Encontro de Docentes da UFRN a professora Isaura Brandão, do Núcleo de Educação da Infância (NEI), fez a mediação entre o jornalista Luis Nassif e Willington Germano, sociólogo e professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O assunto da tarde da quarta-feira (30) foram os desafios do presente para o Brasil: o cenário econômico, social, a saúde, meio ambiente, cultura e comunicação.

Luis Nassif deu início à conversa lembrando que Bolsonaro e a atual situação política não surgiram da noite para o dia, mas são resultado de uma construção que foi sendo realizada ao longo do tempo. “Quando você pensa na construção de um país, o resultado tem que ser o bem estar, a redução de desigualdades. No século XIX começa a disputa entre estado e setor privado. Uma das grandes oportunidades de negócios eram os serviços urbanos, como iluminação, esgoto, asfalto. Em países emergentes, como o Brasil, você não tinha grandes empresas, era açúcar de um lado e café do outro. A partir dos anos 90 começa um discurso liberal e rasteiro, que consiste em afirmar que se você tiver uma empresa privada atuando com modelo de gestão e resultado, ela vai ser mais eficiente que uma empresa pública. O que nós conseguimos nesse período todo foi perder o bonde. Em momentos de crise o estado tem que gastar pra recuperar a economia, mas esse pensamento simplista foi apropriado pelo mercado e a mídia é o grande corneteiro, que nunca cumpriu o papel de discutir o país de maneira complexa. Esse discurso de transformar a economia em uma ciência exata, matemática, não funciona. O jogo de mercado é em cima de um cálculo imediato e o país vem patinando desde o governo Collor pra cá sem conseguir crescer. A grande questão daqui por diante é que a pandemia deixou claro as vulnerabilidades não só no Brasil, mas dos Estados Unidos”, explica Luiz Nassif.

O jornalista também traçou um histórico das tentativas de degradação dos serviços públicos e do discurso uníssono da grande mídia corporativa cujos interesses estavam voltados para os lucros do capital privado. “O que fizeram com o SUS dos anos 90 pra cá? Tiraram a classe média do Sistema Único de saúde porque ela era cliente dos planos de saúde e se o SUS fosse muito eficiente, ela não iria migrar para os planos. Além disso, se a classe média brasileira permanecesse no SUS, caso houvesse perda de qualidade ou redução de gastos, você teria um forte agente político muito mais influente do que a classe popular que não tem voz na mídia. Quando estoura uma pandemia como essa você percebe que o SUS é um baita ativo nacional, que o discurso de que o funcionário público é preguiçoso não é verdade e que a doença da sua funcionária é uma ameaça também a você, é que nós entendemos que o Estado não é um lugar para ter lucro, é para entregar serviços. Nos últimos anos algumas ONG’s empresarias, como as financiadas por Jorge Paulo Lemann, passaram a ajudar o setor público a ser mais eficiente, mas com que intuito? Não era o de melhorar a entrega do serviço para o contribuinte, pro cidadão, pro aluno. Todo o jogo era ‘como eu faço o mesmo com menos?’. Se o sujeito piorasse o serviço público, mas gastasse menos, era visto como um gestor eficiente. É todo um jogo de construção de imagens em cima de fantasias que a pandemia tá destruindo. Vamos pegar o Paulo Guedes. Hoje você tem todas essas emissoras de tv e até um tempo atrás era mantra dizer que ele tem uma equipe brilhante. Mas é preciso mostrar onde é que está o brilho, o que esse pessoal está fazendo? Nada. Mas vai jogando os slongans em cima disso, se fizer reforma da previdência o Brasil tá salvo, não deu certo. Mas se tiver a reforma trabalhista o Brasil tá salvo, não deu certo. Mas se fizer a reforma fiscal o Brasil tá salvo, não deu certo. Tudo isso está desmoronando mundialmente, não estou nem falando do Brasil porque aqui as coisas são sempre mais lentas. É uma elite muito ruim, uma mídia muito ruim. E a formação de cabeças das elites jurídica, militar, corporações militares, das AGU’s, CGU’s vem de toda essa bolha, dos meios de comunicação repetindo esses mantras. Se eu quiser ser moderno eu tenho que dizer que não pode mexer na lei do teto de gastos senão o país acaba. Você não tem aprofundamento nenhum, é isso que tem que ser desconstruído daqui por diante, tendo como grande elemento a falência do modelo neoliberal exposta nessa crise por todos os países. Isso abre espaço para a nova utopia que vem pela frente, que tem que sair desse ‘economicismo’ vazio’, sentencia Nassif.

O sociólogo Willington Germano começou sua fala acrescentado um ponto ao debate levantado por Luis Nassif: a tradição autoritária brasileira expressas em suas mais diferentes formas. O professor lembrou que ninguém governou o país por mais tempo do que os militares em seus 21 anos de ditadura, o que repercute na educação até os dias atuais. “Walter Benjamin ao observar o nazismo na Alemanha disse uma frase emblemática: ‘se o adversário vencer, nem os mortos irão escapar’. E nós estamos vendo agora, nessa conjuntura de destruição, que Paulo Freire mesmo morto está sendo alvo de perseguição. E assim como ele, Zumbi dos Palmares e muitos outros. Existe um estado de exceção no Brasil, há um ordenamento que contém em si sua negação porque pressupõe a negação de direitos. Aconteceu no golpe militar de 64, no golpe de 2016, na Alemanha de Hitler que suspendeu a Constituição de Weimar referente às garantias individuais e coletivas, aconteceu também em contextos democráticos como nos Estados Unidos após os ataques às torres de Nova York. Desde o golpe de 2016 nós temos vivido reformas que são negação de direitos, que jogam massas da população numa vida nua. É emblemática a queima de livros durante o nazismo, todos esses regimes fizeram reformas educacionais, Temer começou a fazer a reforma do ensino médio, Bolsonaro tentou fazer com o Future-se. Tudo para dificultar o acesso ao pensamento crítico, a compreensão mais complexa do mundo”, critica o professor Germano.

Ainda sobre as tentativas de destruir a educação, com ataques às universidades e intervenções nos institutos federais, o sociólogo Willington Germano lembrou que a universidade está reagindo, mas que é preciso uma ação mais contundente. Nos governos Lula e Dilma houve expansão e democratização do ensino, é preciso reconhecer isso por mais críticos que sejamos a esses governos. Até então, essas escolas eram concentradas nos grandes centros urbanos e litorais. Hoje há capilaridade com expansão para o interior, também houve abertura para fora com o Ciências Sem Fronteiras e a Lei de Cotas. Tudo isso está sob fogo cruzado. Os sindicatos têm que ser fortalecidos, tiveram um momento belíssimo de resistência ao regime militar. Outro desafio para universidade é se abrir mais à sociedade, aos grupos vulneráveis, entrar em sintonia com o sul global. A elite sabia que o governo Bolsonaro era isso, mas apostaram num governo dessa natureza pra evitar que a centro-esquerda voltasse ao poder. Eu fiquei impressionado com uma viagem que fiz à Escandinávia no ano passado e um dos números do circo, no interior da Noruega, era ‘Manhã de Carnaval’. Em Estocolmo fui assistir à um concerto e no bar da ópera estava tocando Tom Jobim, de lá saímos para jantar no restaurante ‘Tom Jobim’. Num restaurante turco, em Oslo, estava tocando Roberta Sá. O Brasil é muito maior do que Bolsonaro. Mas fica a pergunta do porquê esses regimes interferirem tanto na formação da subjetividade, na educação. Grandes pensadores e cientistas se debruçaram sobre isso. O próprio Einstein em seu livro de memórias se reporta às reformas educacionais de sua época. É a reforma do ensino médio de profissionalização para o adestramento, uma separação entre cultura humanística, técnica e científica. O próprio Einstein diz ‘olha, educação é para formar uma personalidade e não um cão adestrado’ e à pergunta sobre o que deveríamos fazer ele responde: ‘nós temos que resistir à barbárie’. Para responder à pergunta de porquê esses regimes interferem tanto na educação eu chamo Hannah Arendt que diz que eles querem interditar o trabalho do pensamento. Nós estamos vendo esse esforço no atual governo na ideia da escola sem partido, das escolas cívico-militares. O desafio do momento é enfrentar essa barbárie e o obscurantismo com nossas armas do conhecimento que é a educação”, incentiva o professor Willington Germano.

O 1º Encontro de Docentes da UFRN é um evento preparatório para o Encontro Nacional do PROIFES-Federação, que acontece em novembro. As transmissões do Encontro podem ser acompanhadas no Canal do ADURN-Sindicato: https://www.youtube.com/channel/UCeyhMfPeMjJByndAiSLHKLg

Fonte: Ascom ADURN-Sindicato

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