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“Convivemos com uma compreensão pejorativa e preconceituosa dos transtornos mentais”

Encerramos o mês em que a campanha Janeiro Branco lembrou a todos e todas de que é preciso cuidar da saúde mental. E, mais do que isso, fazer um pacto que envolva o poder público, as instituições privadas, as entidades de classe e toda a sociedade por uma cultura de saúde mental.

Desde o início de janeiro, a ADUFRGS-Sindical vem publicando matérias e entrevistas sobre o tema. Para o encerramento do mês, mas não do debate, cabe ressaltar, entrevistamos a psicóloga e psicanalista Rose Gurski. Ela é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), professora do Instituto de Psicologia da UFRGS, do PPG Psicanálise: clínica e cultura da UFRGS e do PPG Psicologia Clínica da USP.

Em três perguntas, Rose responde sobre políticas públicas, a importância da escuta do sofrimento psíquico e o papel do sindicato nessa escuta. Leia a entrevista.

Portal ADverso – A campanha Janeiro Branco propõe um pacto por uma cultura de saúde mental. Esse pacto deve incluir toda a sociedade e também os governos. Como a senhora vê a questão das políticas públicas para saúde mental (ou a falta delas) no Brasil?

O processo de redemocratização, ocorrido no Brasil nos últimos 30 anos, trouxe consigo políticas de saúde mental que podemos considerar vanguardistas no sentido de que tais políticas recusaram a lógica asilar dos hospitais psiquiátricos como a “única saída”, propondo ações de cuidado em saúde mental antissegregacionistas, com práticas que prezam pela circulação e inserção social dos sujeitos acometidos por sofrimentos psíquicos mais gravosos.

De todo modo, as práticas segregadoras e a intolerância estão sempre a nos espreitar. Apesar de inúmeros avanços em vários âmbitos das políticas nacionais de cuidado em saúde mental, seguimos convivendo, em nossa sociedade, com uma compreensão não só pejorativa e preconceituosa dos transtornos mentais, mas, sobretudo, ainda muito intolerante com a diversidade.

Neste âmbito, precisamos ainda considerar que o ideário neoliberal, baseado em um conjunto de práticas de gerenciamento do mal-estar, entre elas, a individualização do sucesso pela via do mérito e da culpa por eventual fracasso, interiorizou-se em nossas vidas, suscitando uma nova forma de sofrimento relacionada ao modo de gestão de nossas emoções. Neste cenário, assistimos uma redução do âmbito da saúde mental às problemáticas individuais. Junta-se a essa individualização crescente em vários setores de nossas vidas, a intensa medicalização dos humores e sentimentos.

Infelizmente, vemos que para lidar com as angústias existenciais, muitas famílias e instituições tem apostado nas intervenções rápidas e eficientes prometidas pela psiquiatria medicamentosa Nesse contexto, um estado melancólico tende a ser tomado não como um sintoma singular, produto do sofrimento psíquico singular e da dialética entre as questões do sujeito e do social, mas, sim, como um mero desequilíbrio neuroquímico.

Quando elegemos a medicalização como única via de tratar o sofrimento psíquico, apagamos outras questões que precisam ser tratadas e debatidas. Ao tratarmos de questões de saúde mental, não podemos esquecer, como dizia Freud que, todo sofrimento individual está articulado ao tecido social. Esta noção nos alerta para a importância de que, além da responsabilização dos sujeitos por seus atos, uma sociedade precisa também elaborar a responsabilização coletiva pelos processos sociais que afetam as vidas de modo singular.

Nesse sentido, é preciso ter claro que uma boa política em saúde mental, coerente com o que constitui as subjetividades, deve prezar, sempre, pela garantia de direitos básicos e fundamentais. O acesso a condições sociais, culturais e econômicas é fundamental para a saúde mental de um sujeito. Ter um trabalho digno, acesso à educação e saneamento básico, tempo para lazer, uma alimentação adequada são também formas de cuidado em saúde mental. Vemos que tais direitos nem sempre são garantidos à população, especialmente àqueles que já se encontram em uma situação mais vulnerabilizada.

No Brasil, temos visto um sucateamento progressivo dos investimentos públicos nas políticas sociais de modo geral. Este cenário foi agravado, a partir de 2017, pela Emenda Constitucional 95 — do teto dos gastos. Atualmente, somou-se a esse quadro os efeitos sociais e econômicos decorrentes da pandemia da Covid-19.

Com um Governo identificado às pautas de extrema direita, a crescente precarização das condições de vida e de empobrecimento das famílias, temos retornado a um cenário anterior à década de 1990 também no âmbito das políticas de saúde mental.  Ao final de 2020, tivemos, por parte de integrantes do governo federal, ações de franco retrocesso na direção das políticas públicas de saúde mental. Dentre essas ações, destaco a tentativa de mudar, de modo significativo, a concepção das políticas de Saúde Mental e da Política Nacional de Álcool e outras Drogas, através da revogação de mais de cem atos normativos que regulavam as políticas de saúde mental desde a década de 1990.

Então, retomando a pergunta sobre as políticas de saúde mental no Brasil, penso que é preciso compreender que atos políticos que buscam promover a destruição de serviços baseados na atenção psicossocial só tendem a aumentar a desassistência, em especial, a pessoas em situação de vulnerabilidade. Na situação de precarização das condições sociais, sanitárias e econômicas que o país se encontra, precisamos fortalecer as redes (públicas) de cuidado e o acolhimento da população que sofre com transtornos de saúde mental. O rechaço ao acolhimento do sofrimento psíquico e das diferentes formas de mal-estar através de políticas que não trabalham a expansão da rede de acolhimento abre espaço, sobretudo, para políticas de teor segregacionista. O que vem depois disso, não sabemos.

Portal ADverso – A senhora sempre coloca a importância da escuta do sofrimento psíquico. De que forma essa escuta pode estar mais presente no nosso dia a dia?

Sabemos que a saúde mental é uma das áreas mais negligenciadas da saúde pública. Temos dados que mostram que quase 1 bilhão de pessoas vivem com transtorno mental, sendo que uma pessoa morre a cada 40 segundos por suicídio no mundo. Estes são dados estarrecedores que nos colocam em alerta para um problema constante que independe de contingências temporais e sociais. Atualmente, soma-se a esse quadro crônico o impacto adicional relativo aos efeitos do confinamento e outras variáveis, trazidas pela pandemia de COVID-19, no campo da saúde mental.

As campanhas de conscientização desta problemática, feitas por entidades como a OMS e outras, têm ofertado um espaço de debate importante na seara pública e social acerca das ações e dos caminhos no combate a essa problemática crônica e agudizada pelas atuais circunstâncias.

Penso que as campanhas públicas, quando afirmam o valor da vida e ajudam a população na construção de laços de cuidado e acolhimento do sofrimento e das diversidades psíquicas, produzem movimentações fundamentais que não deixam de se configurarem como espaços de escuta. Além disso, é claro, precisamos lutar pela ampliação de verbas para que o maior número de pessoas tenha acesso a bons serviços de saúde mental e ao acolhimento singular, quando necessário.

Como colocou Elisha London, fundadora e CEO da United for Global Mental Health, todos, em todos os lugares, podem participar de campanhas de saúde mental, apoiando melhores condições nos lugares onde estão, seja no trabalho, nas instituições, nos laços familiares e outros.

Nesse sentido, diria, junto com Ana Cristina Dunker, no prefácio do livro “O palhaço e o psicanalista”,que precisamos de “embaixadores da escuta” nos diferentes espaços que circulamos. Claro que se tivermos especialistas em saúde mental, tais como psicólogos, nas instituições, um tanto melhor, mas não podemos nos esquecer que, quando falamos em escuta, não estamos propondo um tratamento psicológico tradicional, um a um.

Uma sociedade inclusiva tem necessariamente mais possibilidades de “escuta” em seus diferentes espaços e laços. Tomemos como exemplo as escolas. É muito salutar que os professores possam “escutar o sujeito e seu sofrimento psíquico” além das questões de ensino e aprendizagem. Importa também compreender que não se pode reduzir comportamentos de risco, ou de enfrentamento, simplesmente à má conduta ou desrespeito das crianças e adolescentes. Gosto também da ideia de que a escuta promove os verdadeiros encontros entre os sujeitos, assim como promove encontros entre os sujeitos e a história coletiva. A escuta do outro abre a interessante dimensão de alteridade, o que nos coloca frente ao novo e ao inesperado. Além disso, Dunker e Tebas, no livro que já citei, “O palhaço e o psicanalista”, dizem que“quem escuta se faz testemunha e portador de um patrimônio que, no fundo, poderia ser de todos nós e que alguns chamam de cultura, outros, de memória coletiva…”

A dupla também diz que a vida em lugares onde as pessoas não conseguem se escutar, ou seja, não conseguem instalar a alteridade nos laços, torna-se gradativamente chata e insalubre, um fermento permanente para a agressividade. Essas condições insalubres podem ocorrer de forma mais explícita ou menos explícita, a depender das estratégias de cada ego, algumas destas situações ocorrem na “deep web” das intrigas pessoais e/ou institucionais, onde o mal-estar com o próximo ganha seus contornos mais sórdidos; ali onde as identidades (narcísicas) costumam ficar mais preservadas e os delírios narcísicos ganham grandes apoios, nutridos especialmente pela vilania das inseguranças, invejas e frustrações pessoais.

Em síntese, acredito na proliferação da escuta nos laços como modo de promoção da alteridade, e penso que a alteridade, em geral, costuma arrefecer os efeitos narcísicos dos laços, propiciando ambientes com laços mais criativos, plurais e, em decorrência, potencialmente mais interessantes para o mundo.

Portal ADverso – Como, na sua opinião, os sindicatos podem atuar para minimizar o sofrimento psíquico dos seus associados e associadas?

Creio que, de alguma forma, já respondi a essa questão na pergunta anterior, mas, acredito que os organismos e instituições sociais podem ajudar na compreensão dos processos que fomentam conflitos e problemáticas que redundam em quadros de sofrimento psíquico. Precisamos falar mais abertamente destas questões, precisamos debater a importância de campanhas como essa do janeiro branco e as ações de promoção de saúde mental pertinentes. Precisamos ensejar discussões que carreguem a complexidade necessária a este debate, discussões que envolvam os aspectos políticos, sociais, econômicos e pessoais que participam da problemática de saúde mental.

Acredito que assim como as entidades, dentre elas, os Sindicatos, deveríamos nos perguntar também como cada um de nós poderia se responsabilizar singularmente e, a partir de suas atividades, pela tarefa coletiva de fazer do mundo um espaço menos beligerante e mais propositivo. Um espaço sustentável também do ponto de vista das relações pessoais e sociais.

Na direção da redução de danos frente ao inevitável incômodo humano com as diferenças, me parece que as Instituições e os Grupos, sejam eles quais forem, precisam entender que as saídas não vêm somente pela via da macropolítica; as mudanças também podem se dar na via da micropolitica, por exemplo, com o  estimulo a  trabalhos e discussões que levem os sujeitos e as instituições a compreender que a intervenção não é nem química e, nem através das ruminações imaginárias de pequenos grupos identitários.

Penso que os espaços sociais, as instituições, os Sindicatos, a Universidade e outros, só poderão contribuir com um mundo mais interessante na medida em que visem a pluralidade e as construções coletivas, diferente disto, talvez, tenhamos o que um artigo recente da Revista Piauí sintetizou como “Parece revolução, mas é só neoliberalismo” tomo a liberdade de parafrasear esse registro do artigo fazendo um pequeno trocadilho: “parece revolução e espírito crítico, mas não passam de práticas egóicas”.

Talvez um dos modos de ajudar na construção de laços mais sustentáveis e promissores aos associados seja disseminar as noções de pluralidade, polissemia e coletividade. A possibilidade de conviver com a diversidade psíquica, construindo caminhos coletivos e com abertura à polissemia de sentidos ainda é o que pode construir bons antídotos para aquilo que em nossa sociedade individualista e narcisista não cessa de se inscrever.

Fonte: Portal Adverso

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