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Artigo – O Brasil na Inovação Global

Por Waldir L. Roque[1], ADUFRGS-Sindical, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Durante o IX Encontro Nacional do Proifes-Federação, realizado em João Pessoa, de 12 a 16 de agosto 2013, vários temas e propostas importantes relacionados ao magistério superior federal do país foram apresentados e discutidos. Um dos temas proposto trouxe à tona a discussão da importância do desenvolvimento científico, tecnológico e inovação para o país. O texto que segue é uma compilação da fala do autor durante as discussões sobre o referido tema.

Foi publicada, recentemente, a 6ª edição do anuário do índice da inovação global, elaborado pela Escola de Negócios para o Mundo (INSEAD França),  Universidade de Cornell (EUA) e Organização Mundial de Propriedade Intelectual (WIPO), tendo como base 84 indicadores que foram avaliados no universo de 142 economias mundiais. A Suíça, novamente, se consagra como o país de maior inovação mundial e européia, seguida pela Suécia e Reino Unido. O Brasil não vai bem; ocupa a 64ª posição, tendo caído nas duas últimas edições da 47ª em 2011 para 58ª em 2012, e estando abaixo dos BRICS, com exceção da Índia (66ª), e dos países sul-americanos: Chile (46ª), Uruguai (52ª), Argentina (56ª) e Colômbia (60ª). Noranking apenas dos países latino-americanos e Caribe, o Brasil ocupa a 8ª posição, atrás da Costa Rica (1ª), Chile, Barbados, Uruguai, Argentina, Colômbia  e México (7ª).

Os processos de inovação são consequências de ações integradas entre governo, academia, indústria e mercado, que são os principais agentes na elaboração de políticas para o desenvolvimento científico, tecnológico, industrial e dos serviços. Essa integração é marginalmente praticada no Brasil. A inovação tecnológica exige amadurecimento da ciência e tecnologia com mecanismos ágeis de transferência do conhecimento ao setor produtivo de bens e serviços. É preciso um parque industrial forte e capaz de absorver as novas tecnologias, transformando-as em produtos com alto valor agregado. A pesquisa científica e tecnológica é fator imprescindível nos processos de inovação incremental ou radical e isso demanda recursos humanos altamente qualificados nas mais variadas áreas do conhecimento e que saibam trabalhar de forma cooperativa com os demais agentes.

A inovação incremental busca, essencialmente, agregar valor aos produtos. Quando comparamos o peso por valor agregado de alguns bens, vemos que o conteúdo científico e tecnológico é o diferencial. O peso de um tablete de minério de ferro é aproximadamente o peso de um celular IPhone 5, mas uma tonelada de minério de ferro custa em torno de 140 dólares no mercado internacional, enquanto uma tonelada de IPhone 5 custa 1.7 milhões de dólares. Um grão de soja tem peso equivalente a um comprimido de viagra, mas no mercado internacional uma tonelada de soja é comercializada por 550 dólares, enquanto apenas um quilo de viagra de 100mg custa 1367 dólares. A diferença é que os produtos primários sãocommodities com baixo valor agregado, enquanto os outros são inovações com muita ciência e tecnologia agregadas ao bem.

A geração de conhecimentos, no seu estágio mais avançado, passa por uma boa formação educacional, desde o ensino básico até a pós-graduação. A inovação tecnológica depende fortemente da pesquisa e da formação de recursos humanos, especialmente com doutorado. O Brasil, em sua melhor fase, deverá formar, em 2013, um pouco menos de 10 doutores por 100 mil habitantes, enquanto economias com maior desenvolvimento científico e tecnológico formam mais de 200 doutores na faixa etária de 25 a 29 anos de idade, sendo acima de 500 em países como Suíça, Suécia e Alemanha. Levando-se em consideração que a média atual de formação de doutores no Brasil cresce 11% ao ano, sem considerarmos o crescimento populacional, o Brasil levará aproximadamente 28 anos para atingir a formação de 200 doutores por 100 mil habitantes. Esses números, por si só, já indicam o quanto ainda temos que caminhar para ampliarmos a nossa capacidade de gerar ideias e inovações.

A produção de artigos científicos publicados em revistas indexadas reflete, de certa forma, a capacidade de geração de conhecimento do país. Entretanto, artigos publicados não é sinônimo, necessariamente, da capacidade de inovação tecnológica. O Brasil ampliou muito a sua produção de artigos em revistas indexadas, mas não aprendeu a gerar patentes, a transferir o conhecimento ao setor produtivo nem a induzir negócios a partir dos artigos. Em 2012 o Brasil teve 256 patentes reconhecidas pelo Estados Unidos (USPTO), número muito pequeno quando comparado ao da Coreia do Sul (14.168), da Alemanha (15.041), do Japão (52.773) ou do próprio Estados Unidos (134.194). Esses dados também refletem o quanto temos que ampliar os mecanismos que promovam a inovação.

No Brasil, a pesquisa científica e tecnológica e a formação de doutores estão restritas às universidades e centros de pesquisas públicos, tendo baixa participação de doutores ou especialistas que atuam nos setores industriais ou de serviços. Um novo mecanismo precisa ser adotado para promover uma maior e melhor integração e cooperação entre a academia e o setor produtivo. Mas apenas isso não basta, é preciso também ampliar os investimentos na educação e, em particular, na ciência e tecnologia do país. Enquanto a média de investimentos em C&T das maiores economias do conhecimento é da ordem de 2,2% do produto interno bruto (PIB), o Brasil investe pouco acima de 1,2% do PIB, muito abaixo de economias como a China (1,7%), Estados Unidos (2,7%), Japão (3,4%), Finlândia (3,8%) e Israel (4,4%).

Uma nova política precisa ser discutida e implementada para que possamos alcançar um patamar de integração dos agentes capaz de permitir o desenvolvimento de processos de inovação sustentável, levando o país a se tornar uma economia com base em conhecimento, exportando tecnologias e não apenas commodities com baixo valor agregado.

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