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Apub discute o papel e os rumos do movimento docente

Fonte: APUB-Sindicato

Aconteceu na quinta-feira (03), no auditório do PAF I da UFBA (Ondina) o debate “Conjuntura Nacional e Movimento Docente”. Promovido pela Apub, o evento tinha o objetivo de refletir sobre o lugar do movimento docente, sua importância e estratégias de ação diante do cenário de crise política e econômica. Como palestrantes convidados, estiveram Tatiana Roque, presidente da ADUFRJ- SN, seção sindical do Andes-SN; Leonardo Monteiro, presidente da ADUFC Sindicato, sem filiação nacional; e Lúcio Vieira, vice-presidente da ADUFRGS Sindical, filiado ao Proifes-Federação. Na plateia, representantes de outros sindicatos, como Apufsc, ADUnB, Adufg, Apur, além de docentes da UFBA. A vice presidente da Apub, Livia Angeli, coordenou a mesa. Ela abriu o debate lembrando das dificuldades vividas em 2015 e das consequentes derrotas sofridas pela categoria, apesar das greves. Apontou a necessidade de refletir sobre como o ano de 2016 se apresenta e pensar de que forma o movimento poderia se organizar.

Em sua fala, Leonardo Monteiro concentrou-se na dificuldade enfrentada pela ADUFC por não possuir uma filiação nacional. O sindicato, que deixou o Proifes em 2014 – num processo, segundo Leonardo, hoje muito questionado, numa assembleia cuja participação da base foi muito pequena –  já possui carta sindical, sendo esta uma das razões pelas quais não se cogita voltar ao Andes-SN. “Voltar para o Andes seria nós termos que abrir mão da maior conquista que eu considero que um sindicato tem hoje que é a sua carta sindical, porque dois sindicatos não podem se fundir”, disse ele. Apesar disso, a ausência de participação nas mesas de negociação e nas pautas nacionais são um problema para o sindicato que, segundo seu presidente, tem histórico de combatividade: “deixamos de ter a possibilidade de sermos autores do processo e passamos a ser coadjuvantes”, explicou.

Tatiana Roque, da recém empossada diretoria da ADFRJ, iniciou falando sobre a formação desta diretoria que, conforme ela explicou, não tinha tradição no movimento sindical, mas surgiu em reação ao modo como a greve de 2015 foi conduzida. Ela demonstrou preocupação com a conjuntura, especialmente com a crise “de toda a esquerda no país”. Para ela, a solução passaria pela reconstrução dos movimentos sociais. Sobre o movimento docente, apontou sua função de defender a universidade, considerando os avanços dos últimos 12 anos, mas cobrando pelas melhorias necessárias, sempre em sintonia com a sociedade. “O diálogo com a sociedade é primordial, [por isso] o modo como temos encaminhado nossas lutas tem falhado. Eles afastam a sociedade”. Por fim, recomendou pensar em três eixos para reconstruir o movimento: 1) Luta: quebrar o automatismo da greve como única forma de luta; 2) Organização: mudança nas práticas, a exemplo do modelo de Assembleia; 3) Democracia: manutenção de fóruns de discussão e instrumentos para criação de consenso.

imagem atualLúcio Vieira focou no modo de organização sindical. Ele, que é um dos fundadores do Proifes, defendeu o modelo de sindicatos locais, organizados nacionalmente em uma federação. “Em 2008 nos transformamos [ADUFRGS] em sindicato. Achamos que assim seríamos mais fortes (…). Trazer o poder para o local onde os professores estão foi determinante”, esclareceu. Também criticou duramente o aparelhamento de organizações sindicais por partidos políticos. “Não se trata de negar o partido político, mas entender que o sindicato não é seu porta voz”, disse. Assim como Tatiana, ele questionou a greve como única forma de luta e mobilização, embora não se mostrasse contrário à sua utilização “quando a negociação não flui”. Porém, alertou que era preciso travar um debate aprofundado sobre o papel da greve no setor público. “Afinal de contas, quando a gente faz greve no setor público a gente está fazendo o confronto capital e trabalho?”, indagou.

Após a exposição dos palestrantes, foi aberto espaço para questionamentos do público; alguns dos temas abordados foram:

Greve

A crítica à forma como as greves têm sido deflagradas e conduzidas foi praticamente unânime entre o público, embora ninguém tenha descartado a sua utilização como forma de luta em situações de impasse. A professora Patrícia Valim (FFCH) rechaçou algumas práticas comuns nas Assembleias da greve da UFBA de 2015, como a intolerância a opiniões contrárias ao movimento. Ao comentar as falas da plateia, Tatiana Roque foi além ao questionar o próprio modelo de greve empregado pelo movimento docente, que prejudica a graduação mas pouco afeta a pós-graduação, lugar no qual mais se expressaria a exploração capitalista. “Hoje em dia temos os rankings, tem o Qualis, tem todos esses instrumentos de avaliação da pesquisa que são instrumentos internacionais de mensuração do capital intelectual. São justamente instrumentos do capitalismo cognitivo para medir a produção de conhecimento. E é através da produção que a gente faz na pós-graduação que é extraída Mais-valia”, explicou.  Ao parar as aulas na graduação e continuar suas atividades de pesquisa os docentes não estariam de fato atacando o cerne dos problemas de suas condições de trabalho. ” Então tem algo muito errado aí. Muito errado. Porque a gente está parando com aquilo que pode fazer com que a sociedade nos apoie. É uma greve fake porque de fato a gente não está afetando ninguém que está acumulando em cima do nosso trabalho de produção do conhecimento e a gente está afetando justamente aquelas pessoas que poderiam ser nossas aliadas. Seria muito mais greve, no sentido da origem do termo, a gente hackear o lattes do que parar de ensinar na graduação”, ponderou Tatiana.

Organização sindical

A divisão do movimento docente entre Andes-SN e Proifes-Federação e qual seria a melhor forma de organização sindical permeou todo o debate. Para além dos que defendiam a existência de apenas um sindicato nacional e os que acreditavam que sindicatos locais organizados numa federação seria a melhor opção para o movimento, surgiram outros questionamentos. O professor Rogério Portanova, da Apufsc, entidade sindical que não pertence nem ao Andes nem ao Proifes, sugeriu que os sindicatos sem representação nacional se organizassem entre si e reivindicassem espaços nas negociações com o governo. “Sem nenhum demérito ao Proifes, pode-se ter mais de uma Federação dentro do espaço nacional”, disse. Já Cláudio Lira, diretor acadêmico da Apub, defendeu a articulação entre as entidades a partir de pautas comuns de reivindicação. “Tem várias formas sindicais aqui, mas me parece que a unidade só se constrói quando a gente coloca a reivindicação. A gente senta com um bocado de diferente, que aceita o contraditório, para dizer: ‘ olha, temos acordo que a gente vai lutar contra o ajuste fiscal, porque ele está colocando dinheiro para banqueiros e tirando das políticas sociais? Se tem a gente vai lutar”.

Papel do Sindicato

Sobre o papel que o sindicato deve ter em relação a seus filiados e à sociedade, o debate foi entre o foco nas questões corporativas ou a participação das entidades em enfrentamentos mais amplos. Joviniano Neto, diretor social e de aposentados da Apub, entendeu que ” o sindicato é, tem que ser, deve ser coorporativo. Isso significa defender remuneração, condições de trabalho. No nosso caso de professores, nós sempre associamos a defesa de carreira e salário e condições de trabalho à defesa da universidade”, disse. Em consonância com essa visão, estava o professor José de Siqueira (Apubh):  “Sindicato é para representar os interesses dos professores – ou da categoria que ele representa – no nosso caso os interesses são a questão de carreira e salário”. Entretanto, Cláudia Miranda, presidente da Apub, ponderou que não era possível tratar do específico sem considerar a conjuntura. “O sindicato não existe apenas na sua condição de representar os professores, ou suas categorias, nas pautas específicas e coorporativas. Eu digo não apenas. Porque se nós pensássemos dessa forma, se nós resumíssemos o papel dos sindicatos a isso, não estaríamos nem aqui neste momento. É impossível se discutir qualquer pauta, de qualquer categoria, sem levar em consideração o contexto político mais amplo das lutas”, afirmou ela.

Assembleias e participação eletrônica

Uma preocupação recorrente entre os participantes era de que modo garantir a mobilização e participação da base nas discussões e tomadas de decisão. Muitos questionaram o modelo de Assembleia empregado atualmente e sugeriram outras formas de aferir a opinião dos docentes, como a consulta eletrônica “Eu entendo que existe uma geração que gosta de vir aqui falar” – disse Ebnezer da Silva (ADUnB) –  “e entendo que a gente tem uma geração de professores novos que têm uma outra visão política, quer a gente goste ou não. A gente sente muito essa necessidade de que esses professores participem. A gente vai numa assembleia num lugar onde tem 2.500 professores, se você conseguir 50 é muito. Mas se você coloca alguma coisa na internet as pessoas vão lá”. Entretanto, Cláudio Lira lembrou que o problema pode ser mais complexo do que a forma utilizada para a deliberação. “Um dos primeiros problemas que devemos confrontar é o da representatividade. [Não adianta] Ficar discutindo só forma. Eu posso sair de uma assembleia esvaziada e ir para uma consulta esvaziada, eu troquei seis por meia dúzia.”

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Agência Proifes

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