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Professoras do IA falam da contribuição feminina nas Artes e na Literatura

Publicado em : 10/03/2020

As professoras Maristela Salvatori (artista visual do Instituto de Artes da UFRGS), Daniela Kern (historiadora da Arte do Instituto de Artes da UFRGS) e Joana Bosak de Figueiredo (historiadora da Arte do Instituto de Artes da UFRGS) são as convidadas da mesa “Precisamos falar sobre Mulheres nas Artes e na Literatura”, que integra a programação da Semana da Mulher da ADUFRGS. Nesta entrevista para o Portal Adverso, Maristela e Daniela dão uma palinha do que será tratado no evento.

Portal Adverso - Historicamente, quais são as contribuições das mulheres no campo das Artes e da Literatura?

Daniela Kern - Foram inúmeras as contribuições das mulheres nas Artes e na Literatura. Desde os períodos mais recuados na história, temos registros de contribuições artísticas de mulheres, como nas pinturas parietais paleolíticas, muitas feitas por mãos femininas. Tecelãs e ceramistas trabalham em sociedades tradicionais há milênios, e a poesia antiga tem nomes de peso como a  poeta suméria Enheduana e a poeta grega Safo. Na Idade Média européia, mulheres trabalhavam ilustrando livros como miniaturistas, além de exercer outras atividades artísticas que estamos passando a conhecer melhor. Temos também, nesse período, a primeira escritora profissional francesa, Cristine de Pisano, contemporânea de Joana d`Arc. No Japão, damas da corte escrevem notáveis obras, como A novela de Genji, de Murasaki Shikibu.

A partir do Renascimento, a participação das mulheres nas artes (Properzia de Rossi, Lavínia Fontana, Sofonisba Anguissola, etc.) e na literatura (Marguerite de Navarre, Teresa de Ávila, Moderata Fonte, etc.) paulatinamente cresce, ainda que nem sempre seja reconhecida devidamente. Algumas mulheres abordam com ousadia temas polêmicos, como Artemisia Gentileschi ao pintar suas versões de Judite e Holofernes, e Aphra Behn, dramaturga inglesa, ao escrever Oronooko, uma forte peça de denúncia do sistema escravocrata.

No século XVIII, Mary Wollstonecraft escreve em defesa dos direitos das mulheres, assim como Olympe de Gouges, morta na Revolução Francesa. No século XIX, as vozes femininas se multiplicam, tanto na literatura quanto nas artes, dos romances e novelas de George Sand aos inesquecíveis discursos pelos direitos das mulheres negras de Sojourner Truth e pelos direitos das mulheres de Luciana de Abreu, das telas ingrescas de Joséphine Calamata às altamente originais esculturas de Camille Claudel.

Nos séculos XX e XXI, as mulheres buscam espaço nas instituições artísticas e lutam para reequilibrar os números em termos de representatividade. Escultoras, pintoras, performers, fotógrafas e escritoras são incontáveis, mas ainda não têm a mesma representatividade do que os homens em acervos de instituições e em premiações. 

Portal Adverso – Na quinta-feira também será feito o lançamento da versão digital do livro “Pulsações e Desdobramentos: Vozes Femininas”. Do que trata a publicação?

Maristela Salvatori - Como descrevemos na apresentação da publicação, “Pulsações e desdobramentos: vozes femininas” apresenta produções visuais e produções textuais de acadêmicas vinculadas ao Instituto de Artes da UFRGS. 

Basta um rápido olhar para perceber que somos muitas em número, entre estudantes, egressas e professoras, porém, também é fácil perceber que há pouca visibilidade da produção intelectual das mulheres, traduzida na restrita presença em exposições como artistas e/ou presença em livros como autoras.

Assim, nos somamos aos múltiplos esforços que temos assistido no sentido de dar mais visibilidade a estas vozes. O Grupo de Pesquisa Expressões do múltiplo, UFRGS-CNPq, dedica-se a investigações sobre processos e a experimentações poéticas em gravura, vídeo, fotografia, entre outras possibilidades de desdobramento da imagem, considerando cruzamentos e contaminações de meios e agrega um número significativo de artistas mulheres, pesquisadoras e estudantes ou egressas, com expressiva produção poética, algumas delas explicitamente focadas sobre questões de gênero. A parceria e cumplicidade com o Grupo de Pesquisa Arte e Historiografia, UFRGS-CNPq, e com acadêmicas vinculadas aos cursos de História, Teoria e Crítica de Arte, da UFRGS, permitiu um frutífero diálogo.

Entre os ensaios visuais apresentados, Alice Porto e Carla Borba trazem abordagens explícitas de artimanhas do poder, Alice expondo criticamente imagens realizadas com base em registros fotográficos das Marchas das Vadias no Brasil, enquanto Carla, em colaboração com Carina Dias, utiliza o recurso da performance, apropria-se de eletrodomésticos e objetos variados estabelecendo campos de disputa e polaridades. Objetos do “universo feminino” e objetos de pequena dimensão também são mote para Roseli Nery que, pela assemblage os transforma e estabelece espaços de tensão. De sua parte, Natasha Kulczynski dá segmento ao trabalho iniciado com a raspagem de seu cabelo, este elemento tão forte de identidade feminina e mesmo fetiche. 

Helena Kanaan, pela evocação do púbis, traz “o corpo, atrações e repulsas.” Seu “Frio, calor, umidade e ventos, cores, cheiros, sementes e flores (...) seus estados de latência e dormência.”[1] Já, Sara Winckelmann, trabalha com reminiscências do convívio com a avó e suas estórias, incorporando também o bordado como recurso mnemônico deste universo.

O corpo é uma forte referência nos ensaios de Flavya Mutran e de Mariane Rotter. Nos arquivos fotográficos de Flavya, imagens projetadas em espelho desvanecem e misturam-se a paisagens virtuais, resultado da fusão de imagens auto-referencias encontradas na web, enquanto Mariane problematiza seu ponto de vista em (auto) retrato em banheiros diversos, focando com smartphone espelhos que nem sempre alcançam seu rosto. 

Nestes ensaios ainda encontramos diferentes aspectos da paisagem e da natureza. Em Maristela Salvatori, nos deparamos com a tensão do mar e do movimento das correntes e ondas e suas formas gráficas. O jogo com nosso olhar e a micro-paisagem é estabelecido por Luiza Reginatto ao aproximar fragmentos de uma fotografia de paisagem e de uma litografia representando um tecido modelado tal qual colinas ao longe. Em Márcia Sousa, descobrimos uma paisagem construída que busca remeter ao “extremo, acentuado, de intensidade ou grau máximos, (...) relativo ou favorável a mudanças sociais profundas, completas”, ao passo que Caroline Veilson recolhe e perpetua, pelo processo Marrom de Van Dyke e pela monotipia, flores e folhas pacientemente coletadas, realizando uma espécie de inventário de suas errâncias. Finalmente, o ensaio de Paula Almozara apresenta uma fotografia que se desdobra numa série de pequenas variações e que se constitui “como um dispositivo que discute a ‘ordem’ e o ‘poder’ da narrativa estabelecida por referências a elementos de orientação geográfica (S, de Sul; N de Norte) e da imagem fragmentada de uma paisagem.” 

Constitui o corpo de textos ainda um conjunto de artigos em que teóricas da arte atuantes ou egressas do Instituto de Artes se debruçam sobre os trabalhos das artistas aqui apresentadas, levantando questões instigantes sobre seu fazer artístico. É assim que Joana Bosak de Figueiredo joga entre os múltiplos significados das vestes e das vulvas de látex ao investigar os sentidos da pele na obra desenvolvida por Helena Kanaan. Ana Priscila Costa, a seu tempo, estuda a poética presença das coisas nas obras concebidas por Roseli Nery, o modo como essa verdadeira “população de objetos” manipulada pela artista se torna, para nós, matéria de pensamento. Thiane Nunes desvela, ao olhar dialogicamente para o trabalho de Mariane Rotter, estruturas sociais que costumam forjar a construção da identidade das mulheres, mostrando como a artista, engenhosamente, as questiona. Rosane Teixeira de Vargas, por sua vez, investiga os usos do tempo nos trabalhos de Natasha Kulczynski, o modo como o tempo dita os ritmos da construção da identidade feminina, o modo como a artista desnuda essa mesma construção. Lívia Auler, enfim, propõe uma leitura feminista provocadora para a obra de Alice Porto, ressaltando seu caráter sarcástico, irônico, seu humor ácido sobre a presença masculina em movimentos de reivindicação política de mulheres.

Portal Adverso – Nossa expectativa é que este conjunto de textos e trabalhos, cuidadosamente costurados e urdidos, venha a contribuir para as discussões crescentes (e cada vez mais necessárias) sobre o papel e o lugar das mulheres no sistema acadêmico das artes em particular, e no mundo artístico em geral. Na tua opinião, quais são as principais reflexões que devem ser feitas pelas mulheres neste mês das mulheres?

Daniela Kern - Mais do que pensar apenas no 8 de março, é instigante pensar todos os dias sobre as tantas dimensões da vida das mulheres que ainda precisam de mais direitos reconhecidos, investimento e cuidado, dos direitos reprodutivos à infraestrutura necessária para que as mulheres que são mães possam trabalhar e estudar, de acesso à saúde, emprego e ensino à igualdade de salários. Um tema especialmente urgente é o do feminicídio, que vem crescendo no país e que deve ser combatido com todas as nossas forças. 

[1] As citações aqui são declarações, via email, das próprias artistas às organizadoras do livro “Pulsações e Desdobramentos: Vozes Femininas”, em agosto de 2019.

Fonte: Portal Adverso







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