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ADUFRGS: Racismo estrutural no Brasil se reflete na Universidade

Publicado em : 16/07/2020

O racismo faz parte da estrutura da sociedade brasileira e, portanto, está presente dentro das universidades e na produção de conhecimento. Este foi o consenso entre quatro professores negros da UFRGS, durante o “Conversas ADUFRGS” desta quarta-feira, 15 de julho. Para debater o tema do racismo, a ADUFRGS convidou Fernanda de Souza Bairros (Saúde Coletiva), Gládis Elise Pereira da Silva Kaercher (Faculdade de Educação), Maria Luiza Saraiva Pereira (Bioquímica) e José Carlos dos Anjos (Sociologia e Desenvolvimento Rural). A mediação foi feita pelo diretor da ADUFRGS, José Vicente Tavares dos Santos.
 
Os professores trataram sobre as diferentes formas de racismo no ambiente acadêmico e como aplacar essa realidade com escolhas que determinem, por exemplo, uma política de gestão antirracista. Os docentes contextualizaram o racismo institucional que vivem no o dia a dia da universidade, usando a UFRGS como referência, mas, também, falaram sobre iniciativas que têm ajudado, mesmo que lentamente, a superar essa chaga social dentro no ambiente acadêmico. 

Racismo institucional  

Na UFRGS, menos de 5% dos docentes e menos de 10% dos alunos são negros. No caso dos docentes, no entanto, não existem dados consistentes sobre o real percentual de pretos e pardos. A professora Gládis Kaercher apresentou números do Painel de Dados do site da universidade que comprovam esta lacuna. No site, dos 27.437 alunos, 1.939 são pretos, pardos ou indígenas, mas do total de 2.942 docentes, não há informações sobre raça.  

A Coordenadoria de Ações Afirmativas (CAF) tem feito um levantamento para precisar esse número. Segundo a professora, porém, que é do conselho consultivo da CAF, mesmo pelo questionário autodeclatório, os números não batem. Para transformar a realidade do racismo institucional, defende Gládis, “é necessário racializar a docência, e este é um especial convite à branquidade da nossa universidade que precisa sair da pretensa neutralidade. Precisa ouvir e aprender”. 

A UFRGS, segundo Gládis, é uma instituição atravessada pelo racismo no seu cotidiano. “Na minha carreira de 25 anos, infinitas vezes fui colocada em situações nas quais meus interlocutores não ligavam a minha identidade racial à pessoa que esperavam. Cabe pensar também que os espaços decisórios na nossa universidade são quase todos ocupados por sujeitos brancos que não necessariamente se percebem como sujeitos racializados, e não necessariamente percebem o racismo na instituição”, afirmou.  

Mesmo assim, ao longo do tempo, a universidade tem apostado em iniciativas que ampliam o acesso de não brancos ao corpo discente, como a Política de Ações Afirmativas, mas também ao corpo docente, como apresentou a professora. Em 2018, a UFRGS passou a reservar nos concursos públicos e nos processos seletivos para professor substituto vagas para pessoas com deficiência (20%) e para autodeclarados pretos ou pardos (20%). 

A iniciativa já fez diferença, segundo Gládis. Antes de 2018, somente um professor se autodeclarou negro entre os 368 nomeados. Após a mudança, cinco docentes se autodeclaram negros dos 58 nomeados.   “As ações de combate ao racismo são recentes, mas já refletem o impacto na transformação do perfil étnico-racial na docência da universidade. Ainda há uma assimetria absurda, mas já vemos uma presença negra mais expressiva, fruto também da ação dos sujeitos negros em prol dessas políticas”.  

Veja a apresentação da professora Gládis

Epistemicídio 

A professora Fernanda de Souza Bairros abordou o racismo na Ciência, com foco em sua área de atuação, a Saúde, refletindo sobre os diferentes tipos de racismo na área, que, no limite, matam mais a população negra. Segundo Fernanda, o racismo vai se reconfigurando de acordo com o espaço e o tempo em que ocorre, mas na Ciência, a invisibilidade do negro é um de seus instrumentos recorrentes.  

“A universidade é branca, brancocêntrica, onde não há nos planos de ensino e currículos, autores e intelectuais negros, negras ou indígenas. Na universidade  eurocêntrica temos o racismo marcando a produção intelectual e do conhecimento”, disse Fernanda, referenciando o pensamento da filósofa e escritora Sueli Carneiro, que faz uma relação entre o genocídio e a morte simbólica. “Essa morte simbólica do saber, do conhecimento não branco. O Epistemicídio, assim como a colonização, é o assassinato e a recusa da produção de conhecimento de determinados povos”.  

Como epidemiologista, Fernanda afirmou que “o racismo é um determinante social de saúde”. E a atual crise sanitária confirma isso. “A doença chegou com a elite branca e após três meses mata mais pessoas negras”. Para ela, o símbolo dessa desigualdade é a primeira morte por Covid-19 no Brasil: uma mulher negra, idosa, empregada doméstica que pegou a doença dos patrões que voltaram contaminados da Itália.

“Quem são as pessoas que têm direito a fazer quarentena? Quem tem direito o direito de sobrevier à pandemia?”, questionou, reforçando que os indicadores de saúde referendam a desigualdade racial no contexto da pandemia e que “nos deparamos, mais uma vez, com o processo de colonização, e no mundo do trabalho, se paga um preço muito mais alto quando a pessoa é negra e mulher”.  

Mesmo na pandemia, testemunhou, “o racismo não dá trégua”. No último dia 6 de julho durante uma aula virtual realizada pela Universidade Federal de Santa Maria, Fernanda e outros colegas sofreram ataques racistas, o que fez os organizadores a suspenderem a aula. “O Grupo tinha um objetivo claro de inviabilizar essa produção de conhecimento, mais um assassinato. Por isso, é importante continuar pautando o racismo na Ciência e na produção desse conhecimento”.  

Nota da ADUFRGS sobre os ataques

Veja a apresentação da professora Fernanda

Racismo disfarçado   

Na Bioquímica da UFRGS, a professora Maria Luiza Saraiva Pereira é a única mulher negra. E por isso, escolheu falar sobre como é o dia a dia de uma pessoa negra na universidade. “O número de docentes negros ainda é muito baixo na UFRGS e isso é reflexo da estrutura de uma sociedade que coloca a mulher negra numa posição inferiorizada inclusive em relação ao homem negro. E isso tem impacto em como me apresento”, disse.  

“No primeiro dia de aula, os alunos quando chegam têm algum tipo de reação. Os brancos podem estranhar ter uma professora negra, e hoje em dia, mesmo com as políticas afirmativas, os alunos negros também expressam surpresas porque ainda não é comum uma professora negra dando aulas para eles”, relatou.  
    
 Estar presente numa instituição de ensino superior é um desafio cotidiano, aponta Maria Luiza. “Nós somos cobrados numa dimensão maior do que outros colegas. Mas este tipo de cobrança não é aberto, é velado, disfarçado, de uma forma sutil estamos sempre tendo que nos posicionar e dizer que existimos, ou seja, que também estamos aqui. Fizemos uma construção para ocupar esse espaço, mas os olhares são sempre de dúvida. Será mesmo que você pertence a esse espaço?”  

Para Maria Luiza, essa percepção é fundamental para construir uma educação antirracista. “Temos que parar de pensar se uma pessoa pode ou não estar em um espaço, baseado pela cor da pele. A cor da pele não pode ser o determinante”, defendeu. “O que a gente chama de representatividade também nos traz um peso; ser o único negro presente em um determinado espaço significa que nós representamos um número enorme de pessoas e isso também pode nos levar ao adoecimento. Alguns autores chamam isso de síndrome do negro único e isso é pesado”.   

De acordo com a professora, o processo de mudança não ocorre em pouco tempo, “mas precisa acontecer dia após dia, ano após ano até que a gente mude o percentual de 95% de pessoas brancas”, e isso, explica, se faz com políticas antirracistas.  “Diariamente enfrentamos uma batalha psicológica, olhares, comentários baseados em desqualificação de opiniões e visões. As pessoas brancas podem não perceber, mas é fundamental que a gente desenvolva e aposte numa cultura antiracista. Essa cultura precisa terminar com os estereótipos, em que cor da pele determine até onde ela pode ir”, finalizou.  

Enigma sociológico  

O professor José Carlos dos Anjos falou sobre o “enigma sociológico”. No Brasil, disse, “mesmo com uma estrutura social racista na qual a maior parte dos pobres é negra e taxa de homicídio da juventude negra se configure como genocídio, o racismo no país não é explícito, é um racismo envergonhado. As pessoas são racistas por instinto de preservação”, afirmou. 

Segundo o professor, isso acontece desde a abolição, quando se configurou uma situação de conflito racial. “Nesta guerra de raça foi se elaborando um projeto e um conjunto de crenças de miscigenação racial e biológica na ciência que carregam a eugenia como um processo de embranquecimento da sociedade brasileira, na qual os negros precisam ser disciplinados”, destacou. 

Essa lógica, para o professor, ajuda a explicar o crescimento da extrema direita no Brasil. “Quando as pessoas negras começam a ascender socialmente, ocupar espaços da universidade, aeroportos, quando corpos não brancos começam a frequentar espaços brancos, há uma reação do branco”. 

De acordo com Dos Anjos, a guinada à extrema direita da classe média branca é reação aos governos de esquerda que “atenuaram essas barreiras”. “As políticas afirmativas, de valorização negra e indígena, beliscaram a ideologia racista e o sentido de superioridade racista”.  Com a ascensão da extrema direita, pontuou, a violência contra os negros aumentou muito, com o extermínio da vida e cultura das populações negras. “Isso tem implicações no foco que queremos pensar para a saída da sociedade brasileira desta situação de extrema desigualdade e caminhar para um processo efetivamente democrático”, ressaltou. 

Na opinião do professor, “não há processo democrático se os segmentos negros e as culturas negras não forem incorporados como parte da cultura política majoritária da sociedade. Porque a sociedade brasileira é majoritariamente constituída por pessoas não brancas e essas pessoas carregam valores que precisam ser incorporados à ideia de como a sociedade quer se projetar no futuro”.  

Antes de passar para as perguntas dos espectadores, o diretor da ADUFRGS, José Vicente Tavares, destacou a importância das contribuições das professoras e do professor e comentou os exemplos trazidos. “A pandemia desvelou outra pandemia que é a vulnerabilidade das populações negras e indígenas. Assim também como a produção do dado, que mostra que as universidades têm a obrigação de fazer censos que incluam a dimensão da cor da pele”, afirmou.  

Participação do público

Até o fechamento desta matéria, 467 pessoas haviam assistido à Live, que permanece no canal da ADUFRGS no YouTube. Se inscreva no canal para receber todas as notificações. Veja alguns comentários no chat durante a transmissão da live sobre racismo:


Importante discutirmos o tema da morte simbólica de negros/negras, e povos originários. 
Jane Felipe 

Gladis, parabéns pela tua fala que convoca a todas e todos a nos posicionarmos diante do racismo estrutural nas instituições. Fernanda minha solidariedade e obrigada por compartilhar teus estudos. 
Lili Prestes


Parabéns à Adufrgs e aos painelistas, pelas exposições claras e capazes de informar e fazer refletir. 
Maria da Graça Pinto Bulhões  


Um painel muito interessante, todas as intervenções tocaram questões de suma importância. Parabéns aos painelistas! 
Camila Braga   


Parabéns à ADUFRGS e aos PALESTRANTES. Excelentes falas, que nos levam à reflexão e à ações antirracistas. Todo apoio e solidariedade à Professora Fernanda Bairros.  
Eloir Souza  


Assista à live na íntegra

Fonte: Portal Adverso



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