PROIFES | Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico

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O machismo mata mais que o cigarro

Publicado em : 24/04/2017

Rosana Maria Ribeiro Borges*

Na tarde de hoje tive que ir à Sede da Unimed Goiânia para resolver uma questão. Parei o carro no Estacionamento Carneiro, situado na T1 logo abaixo da Unimed, porque, por ali, achar uma vaga na rua é algo muito difícil. Quando desci do carro, um funcionário do estacionamento me olhou com cara de tarado e disse: “muito bom, só falta parar de fumar”. Reclamei muito com ele e com o gerente, porque eu não estava ali para ter a minha aparência avaliada – apenas desejava estacionar o meu carro; na condição de cliente, tenho o direito de ser respeitada como tal e, definitivamente, não sou obrigada a me submeter à comentários desse tipo; na condição de mulher e dona da minha existência, não estou disposta a ouvir a opinião de um homem que nem me conhece e que pensa poder agir ao seu bel prazer e sem nenhuma consequência ou responsabilização pelos seus atos e, finalmente, na condição de fumante, a vida é minha e são minhas as escolhas – também não tenho que dar satisfação.

Postei um desabafo no meu Face que teve uma grande receptividade, especialmente por parte das mulheres e das pessoas engajadas no movimento LGBT ou em coletivos que discutem minorias. Todavia, apesar de eu ter escrito que “esse post é dedicado a quem ainda pensa que as mulheres não estão sujeitas, a todo instante, às atitudes machistas dos homens”, percebi que algumas pessoas não compreenderam que o cerne do infeliz acontecimento não se refere ao fato de eu ser fumante, e sim, à minha condição de mulher. Tenho certeza que o comentário do homem do estacionamento não tem absolutamente nada a ver com o cigarro que eu tinha acabado de acender ao descer do meu carro, e sim, à minha condição de gênero, à minha condição de mulher. Do alto do seu pedestal de macho, aquele homem se achou no direito de me dirigir a palavra para avaliar a minha aparência e palpitar na minha vida. E mais: também tenho convicção de que se eu estivesse acompanhada por um homem, ele não teria feito o comentário machista que fez.

Na minha trajetória de vida, não demorei muito para perceber tais questões. Venho de uma família de sete filhas, e fiquei grávida muito cedo. Aos 16 anos, quando estava grávida, sofri preconceito na rua, na escola, no hospital e em ambientes que, socialmente, acha-se que uma mulher não vai ser discriminada por sua condição feminina. Na universidade não foi diferente. Ingressei aos 17 anos, mãe solteira, com uma bebê de pouco mais de seis meses de idade e enfrentei muitas atitudes machistas de colegas e de professores. Sim! Há machismo na UFG!

Quando eu, em 2014, entreguei a gestão do Adufg Sindicato, no discurso de “desposse” fiz questão de registrar: [...]uma das coisas que mais me marcaram nos últimos cinco anos que estive à frente da Adufg, primeiro como diretora vice-presidente e depois como diretora presidente, é a gritante discriminação de gênero que, a meu ver, não deveria existir na sociedade, na Universidade e, tampouco, no movimento sindical. Sim colegas, o machismo é algo latente e, por vezes, tão sutil que passa por despercebido. Mas eu percebi! Percebi e senti cada insulto, cada xingamento, cada frase composta com palavras que visavam ferir a minha condição feminina ou a minha própria existência enquanto mulher e líder sindical”.

Engana-se quem pensa que o machismo ocorre apenas quando um homem assume-se superior por ser homem ou quando esse violenta ou agride fisicamente uma mulher. O machismo acontece o tempo todo e, como qualquer outro tipo de violência, é também inerente ao campo simbólico e, por conseguinte, cultural. Uma recente pesquisa do Instituto Datafolha, que foi encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, indica que, em 2016, uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no Brasil, sendo que, a cada hora, 503 mulheres brasileiras foram vítimas de agressões físicas (disponível em http://exame.abril.com.br/brasil/os-numeros-da-violencia-contra-mulheres-no-brasil/).

Ainda segundo essa pesquisa, no ano passado 22% das brasileiras sofreram agressões verbais, o que totaliza 12 milhões de mulheres, enquanto 3%, ou seja, 1 milhão e 400 mil mulheres foram espancadas ou foram vitimas de tentativa de estrangulamento. Das mulheres que sofreram violência, 52% se calaram, ou seja, não recorreram à Lei Maria da Penha, sendo que apenas 11% procuraram uma delegacia especializada e 13% pediram ajuda aos familiares. Se esses dados são assustadores, mais assustador ainda é o perfil do agressor: em 61% dos casos, ele é um homem conhecido da mulher; em 19% companheiro atual e em 16% ex-companheiro. E outra: as agressões mais graves ocorreram justamente dentro da casa das mulheres (43%), e esse quadro criminoso ocorre em todas as classes sociais e nas mais diversas profissões.

Prova disso é que volta e meia, na UFG, ouvimos falar de casos de assédio ou de algum homem que, na Universidade ou em outros ambientes, agrediu uma mulher ou teve atitudes machistas. Na FIC, há pouco tempo, as estudantes criaram uma Coletiva Feminista denominada Nonô Noleto, um espaço de enfrentamento do machismo e de afirmação e empoderamento das mulheres – um exemplo que deveria ser seguido em todos os ambientes, dentro e fora da UFG.

Como mulher, profissional, sindicalista e mãe (sim, eu sou mãezona!), aproveito o espaço que o Adufg Sindicato oferece ao debate entre as(os) docentes para fazer esse desabafo aqui também, mas, sobretudo, para registrar que machismo a gente enfrenta com ação, atitude e práxis, afinal, o machismo mata mais do que o cigarro! Mas eu não quero encerrar este texto com essa frase de efeito. Quero convocar os ensinamentos de Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância”.

*Professora e Coordenadora do Curso de Jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás.






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